sábado, 17 de julho de 2010

Minha primeira vez.....






                                           Prisioneiro








               Hoje pela manhã quedei-me a ouvir um cantarolar infantil, um tiurularará, alegre entoado a plenos pulmões.

Já seria muito estranho, mesmo em se tratando de uma criança, mas este era senão estranho, pelo menos insólito, por se tratar de uma criança de 50 anos!


Uma criança aprisionada em um corpo adulto e disforme, uma mente atrofiada, imatura, incapaz de se locomover sozinho. Dependente da paciência, do humor e da atenção de adultos já velhos também e cansados de lidar com ele.

Essa alegria toda em horas tão matinais, donde viria? O que poderia deixar tão bem humorado uma criatura assim?   Que motivos de felicidade teria este ser para se expressar cantando?


É meu vizinho, há muitos anos. E em todos esses anos sempre me questionei sobre o sofrimento desta ALMA, aprisionada há tanto tempo...

Agora, ouvindo-o externar sua alegria, percebo que o sofrimento não é dele, ele não sabe o que é e nem o que poderia ser. Não percebe a diferença entre ele e outro adulto. É uma criança de quatro anos, que ri, chora e faz pirraça, e que ignora o mundo a seu redor.


Tem às vezes crises de ira muito fortes que fico a ouvir daqui penalizada e impotente.
Agora sei, a simples razão de viver já lhe basta e ele, mesmo tão limitado, consegue ser feliz, a seu modo, a seu tempo, até um dia...
Heloísa 30-04-05


domingo, 11 de julho de 2010

Um encontro com o tango

Ah! A penumbra dos salões...
O cheiro do tabaco,
Misturado aos suaves perfumes
Que evolam das mulheres e seus pares

A música envolvente
Os casais entrelaçados se olhando ternamente
Entorpecidos pela cadencia
Das notas sensuais de um tango

De pé, inebriada, afogueada
Assistia fascinada aquela gente.
De repente , não sei vindo de onde,
Ele surgiu à minha frente

Já empapado de suor
Sorridente, sedutor
Enlaçou-me graciosa e rapidamente
E saímos rodopiando pelo salão

O tango entrou por minhas veias
Ele colou-se em mim. E dançamos sensualmente
Olhos nos olhos. E eu sorria escancaradamente
Louca, tonta, fascinada.

Ele sussurrou-me coisas
Meu coração bateu fora do ritmo
De pernas bambas já quase não podia seguir
A evolução frenética do tango

Seus olhos me envolviam insinuantes e promissores
Seus braços fortes me amparavam e me guiavam
No frenesi daquela dança apaixonante
E nos sentimos um só, envoltos no fogo sensual do tango que findava

Um último rodopio
Ele fez um passo louco em grand finale
Beijou-me o pescoço, sorriu
E se foi...


Heloísa – Dez - 06

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Um Lugar...


         

            Deveria existir (ou será que existe?) uma “vila” de nossas vidas, uma ruela, um beco ou um caminho da memória, por onde se ali volvêssemos, pudéssemos atravessar ruas da infância com suas velhas casas e casarões, suas praças, riachos de águas cantantes e cristalinas, fazendas com fogão à lenha que cozinham batatas, mandiocas e assam broas e rosquinhas.

Ah! Sentir o cheiro do mato puro, do orvalho fino das manhãs azuis, das flores em cada jardim e nos altares da Matriz.

Passear saudades entre as pessoas, hoje revestidas de ausência.

Rever encantos, ouvir silêncios e zumbidos, ruídos, não barulhos.

Virando a esquina, outra cidade, outra época, outro fascínio de menina.

E assim, a cada passo, rever e beber da saudade viva, o elemento sexto para fortificar a vida aqui, entre ruínas desse “nosso mundo”!

29-09-03  Heloísa Bittencourt