segunda-feira, 21 de junho de 2010

MEMÓRIAS DO CASARÃO



          Essa é uma das aquarelas da artista plástica Letícia Uchoa (minha prima), que como disse Darcy Figueiredo em transcrito sobre o Barão de Catas Altas, neste informativo: “é tudo o que resta do Casarão Augusto Franklin”.

Foi nesse casarão onde passei os melhores momentos de minha infância, curtos momentos, mas doces e memoráveis. Curtos, porque só os usufruía nos períodos de férias, mas intensos, alegres e misteriosos.

Meu primeiro cuidado tão logo melhorava dos enjôos da viagem, era correr aos chamados “cômodos de baixo”, onde ficavam os cômodos da “venda”, a escola e a cozinha de baixo e outros tantos, grandes, escuros, empoeirados, misteriosos e fascinantes, cheios de coisas antigas como livros, restos de mobílias, roupas sem dono ou serventia e, vida, muita vida.

Nesses enleios, e entre entretida e deliciada, ficava até que alguém desse por minha falta e lá ia me buscar para um banho, um lanche ou para rever algum parente recém-chegado.

Na cozinha de baixo era onde se reuniam minha avó e minhas tias, quando era época de preparar as “quitandas”, todas de aventais alvíssimos, panos também muito alvos combriam-lhes os cabelos. E meu avó muito antes de elas apoderarem-se do recinto, lá ia habilidoso e lesto, confeccionar os gravetos que iriam facilitar o acendimento do enorme forno de barro. Confeccionar sim, pois ele tomava de uma faquinha tirando das peças de lenha seca, há muito acondicionadas a um canto da enorme cozinha, lascas de madeira que afilava como grandes palitos, paciente e engenhosamente. Acendia então o fogo e deixava o local para as ágeis quitandeiras.

Meus primos e eu a tudo acompanhávamos, sem, no entanto, podermos tocar em nada, era como um cerimonial, só para mulheres. Dali saiam sob nossos olhos atentos e ávidas bocas: pães, bolos, broas, rosquinhas, biscoitos de polvilho e um delicioso doce de leite, feito em um enorme taxo de cobre, o qual nos era permitido rapar, as outras iguarias eram acondicionadas em grandes latas e guardadas longe de nosso alcance, mas servidos com fartura á hora do café ou quando tínhamos visitas.

Chocou-me quando o soube no chão, desfeito em pó.

O tempo cruel e inexorável desfez sua imponente estrutura e tiveram que derruba-lo. Hoje, lendo as páginas do VERDE CATAS ALTAS Informa, tive o grato prazer de saber que este prédio tão querido, antes mesmo de ser a casa de meus avós, onde também funcionava uma escola rural, foi um famoso Colégio.

Explica-se assim seu tamanho que me fascinava ao mesmo tempo em que me assustava, e sua imponência que me fazia menor do que era, nos meus três, quatro, cinco...anos de idade.Agora sei porque possuía tantos salões, seu próprio oratório, duas entradas sociais, e inúmeros quartos, cada tio e tia tinha seu próprio quarto, a empregada da casa também tinha o seu no mesmo andar do da família.

Heloísa Helena Bittencourt de Moura Campos – Timóteo,16-10-01

                                                          




                                                    A Serra




           Era tarde de sábado em Catas Altas. Nuvens róseas tingiam o céu, antes de um translúcido azul total, sem um retalho de nuvem. A brisa já esfriava e aumentava em velocidade, anunciando o fim do dia e prenunciando uma noite bem fria.

No Adro da Matriz, onde se instalara um palco monumental e de moderna e belíssima estrutura, provinha música deliciosa que reverberava na montanha azul-índigo, majestosa ao fundo. Paulinho Pedra Azul ensaiava, ajustava o som e os instrumentos para o show noturno.

Já então manifestava-se um grande espetáculo: ao fundo a pedra azul de Catas Altas estava translucida pelo sol da tarde, tão azul quanto um lago profundo. A música reverberava suavemente, na maviosa emissão da voz do cantor pela praça da Igreja, percorria toda a a cidade e o vale que  a contém. Parecia magia pura, enlevo.

Deixei-me levar pelo encantamento e viajei nas asas da canção soprada pelo vento.

E assim, embevecida pela harmonia dos tons e sons, quedei-me nos degraus da Matriz junto a um alegre grupo, e fiquei a admirar a esplendida massa pétrea à minha frente. Uma muralha natural que aprendi a respeitar, temer e admirar desde pequena, quando aqui passava férias.

Pessoas de todas as idades, e vindas de várias cidades de minas, circulavam pelo Adro, aguardando o show anunciado para esta noite, sem pressa, proseando, namorando, bebericando um vinho aqui, uma cerveja ali.

Fixei meu olhar em direção à Serra e fiquei a imaginar... Quantas cenas essas pedras milenares não assistiram de lá, assentadas soberanas no sopé da cidadela. Dali elas viram chegar os primeiros exploradores. Viram crescer o primeiro agrupamento, as primeiras casinhas aqui e acolá, chegar o gado, os animais de cargas, nascerem os primeiros bebês. Novos casais se uniram e mais casas, sobrados, casarões brotaram do chão. Ricos, pobres, escravos, foram lentamente povoando a sua encosta. Seus restos mortais, vieram mais tarde adubar seus entornos.

A água cálida e cristalina que brota de suas entranhas, lavou, nutriu, aplacou a sede, regou as plantações e fez brotar flores, as mais lindas e exóticas.

E ela lá, firme, solene, imponente, a tudo assistindo, como uma muralha protetora natural, vendo vicejar à sua volta uma cidade com suas fleumas, lutas, festas, alegrias, desenlaces e até mesmo os crimes. Se lhe fosse concedido o dom de contar, de relatar o que presenciou com o passar dos séculos, ali enrijecida, parecendo fria e impassível, por certo nos diria com sua voz de pedra, arrastada, tonitruante, tipo barítono e forçando nos erres, a mágoa de ser pedra, de ser imóvel. Contaria entristecida, as inúmeras vezes que quis se desfazer em avalanche e acabar com as injustiças; as vezes que quis colher todas as belas flores que brotam em seus penhascos, para presentear os novos bebês que nasciam, e alegrar àqueles que os seus perderam em lutas, em emboscadas, em acidentes, em castigos por demais severos e impiedosos, nas prisões frias e malcheirosas e pelas doenças implacáveis.

Ela diria das vezes que quis ser abrigo e socorro para os fugitivos, moradia quente e acolhedora para os novos casais. Das quantas vezes que tentou ser muralha inviolável contra malfeitores.

E... após longo suspiro, recheado de infelicidade e frustração, se faria novamente pedra e emudeceria, eternamente.

Heloísa

Maio de 2007

Revista em 23-03-10