Evocar, criar, republicar lembranças, causos, notícias familiares, detalhes da genealogia familiar. No mais... eternizar, ou tentar deixar grafado em bits o que penso, o que gosto e coisinhas que vez por outra me atrevo a escrever. Muito obrigada por seu tempo gasto aqui conhecendo um pouco de minh'alma. Bjo gde.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Divagando
Caras, caretas, carentes..
Rostos, rotinas, retinas.
Circos, circenses, cercados.
Risos, risadas,
Palmas, aplausos, palmadas.
Dor, dorido doente...
Fora, forasteiro, ausente.
Importância, importante, impotente...
Quebra, quebranto.
Canto,cantiga, acalanto.
Mago, magia, encanto, encantamento,
Encantada.
Heloísa 08-06-98
terça-feira, 22 de junho de 2010
Origem do amor
Como fogo, todo amor necessita combustível, assim como o fogo ele se alastra, contagia, cresce na medida em que encontra reciprocidade, energia, algo que se deixe abrasar, caso contrário, se extingue, vira cinzas.
O amor já existe, é seu, mora dentro de cada um de nós, ele não vem a nós, não surge quando você encontra o ser ou objeto para amar, ele se intensifica porque encontrou combustível, mas se não for correspondido, se o combustível encontrado não for suficiente, ele se recolherá novamente para dentro de você, até que encontre novo alvo. Assim, você só transfere o seu amor de um ser ou objeto amado a outro, crescendo ou decrescendo de intensidade, na medida da entrega de cada um dos pares envolvidos na chama.
Heloísa, 26-03-05
segunda-feira, 21 de junho de 2010
MEMÓRIAS DO CASARÃO
Essa é uma das aquarelas da artista plástica Letícia Uchoa (minha prima), que como disse Darcy Figueiredo em transcrito sobre o Barão de Catas Altas, neste informativo: “é tudo o que resta do Casarão Augusto Franklin”.
Foi nesse casarão onde passei os melhores momentos de minha infância, curtos momentos, mas doces e memoráveis. Curtos, porque só os usufruía nos períodos de férias, mas intensos, alegres e misteriosos.
Meu primeiro cuidado tão logo melhorava dos enjôos da viagem, era correr aos chamados “cômodos de baixo”, onde ficavam os cômodos da “venda”, a escola e a cozinha de baixo e outros tantos, grandes, escuros, empoeirados, misteriosos e fascinantes, cheios de coisas antigas como livros, restos de mobílias, roupas sem dono ou serventia e, vida, muita vida.
Nesses enleios, e entre entretida e deliciada, ficava até que alguém desse por minha falta e lá ia me buscar para um banho, um lanche ou para rever algum parente recém-chegado.
Na cozinha de baixo era onde se reuniam minha avó e minhas tias, quando era época de preparar as “quitandas”, todas de aventais alvíssimos, panos também muito alvos combriam-lhes os cabelos. E meu avó muito antes de elas apoderarem-se do recinto, lá ia habilidoso e lesto, confeccionar os gravetos que iriam facilitar o acendimento do enorme forno de barro. Confeccionar sim, pois ele tomava de uma faquinha tirando das peças de lenha seca, há muito acondicionadas a um canto da enorme cozinha, lascas de madeira que afilava como grandes palitos, paciente e engenhosamente. Acendia então o fogo e deixava o local para as ágeis quitandeiras.
Meus primos e eu a tudo acompanhávamos, sem, no entanto, podermos tocar em nada, era como um cerimonial, só para mulheres. Dali saiam sob nossos olhos atentos e ávidas bocas: pães, bolos, broas, rosquinhas, biscoitos de polvilho e um delicioso doce de leite, feito em um enorme taxo de cobre, o qual nos era permitido rapar, as outras iguarias eram acondicionadas em grandes latas e guardadas longe de nosso alcance, mas servidos com fartura á hora do café ou quando tínhamos visitas.
Chocou-me quando o soube no chão, desfeito em pó.
O tempo cruel e inexorável desfez sua imponente estrutura e tiveram que derruba-lo. Hoje, lendo as páginas do VERDE CATAS ALTAS Informa, tive o grato prazer de saber que este prédio tão querido, antes mesmo de ser a casa de meus avós, onde também funcionava uma escola rural, foi um famoso Colégio.
Explica-se assim seu tamanho que me fascinava ao mesmo tempo em que me assustava, e sua imponência que me fazia menor do que era, nos meus três, quatro, cinco...anos de idade.Agora sei porque possuía tantos salões, seu próprio oratório, duas entradas sociais, e inúmeros quartos, cada tio e tia tinha seu próprio quarto, a empregada da casa também tinha o seu no mesmo andar do da família.
Heloísa Helena Bittencourt de Moura Campos – Timóteo,16-10-01
A Serra
Era tarde de sábado em Catas Altas. Nuvens róseas tingiam o céu, antes de um translúcido azul total, sem um retalho de nuvem. A brisa já esfriava e aumentava em velocidade, anunciando o fim do dia e prenunciando uma noite bem fria.
No Adro da Matriz, onde se instalara um palco monumental e de moderna e belíssima estrutura, provinha música deliciosa que reverberava na montanha azul-índigo, majestosa ao fundo. Paulinho Pedra Azul ensaiava, ajustava o som e os instrumentos para o show noturno.
Já então manifestava-se um grande espetáculo: ao fundo a pedra azul de Catas Altas estava translucida pelo sol da tarde, tão azul quanto um lago profundo. A música reverberava suavemente, na maviosa emissão da voz do cantor pela praça da Igreja, percorria toda a a cidade e o vale que a contém. Parecia magia pura, enlevo.
Deixei-me levar pelo encantamento e viajei nas asas da canção soprada pelo vento.
E assim, embevecida pela harmonia dos tons e sons, quedei-me nos degraus da Matriz junto a um alegre grupo, e fiquei a admirar a esplendida massa pétrea à minha frente. Uma muralha natural que aprendi a respeitar, temer e admirar desde pequena, quando aqui passava férias.
Pessoas de todas as idades, e vindas de várias cidades de minas, circulavam pelo Adro, aguardando o show anunciado para esta noite, sem pressa, proseando, namorando, bebericando um vinho aqui, uma cerveja ali.
Fixei meu olhar em direção à Serra e fiquei a imaginar... Quantas cenas essas pedras milenares não assistiram de lá, assentadas soberanas no sopé da cidadela. Dali elas viram chegar os primeiros exploradores. Viram crescer o primeiro agrupamento, as primeiras casinhas aqui e acolá, chegar o gado, os animais de cargas, nascerem os primeiros bebês. Novos casais se uniram e mais casas, sobrados, casarões brotaram do chão. Ricos, pobres, escravos, foram lentamente povoando a sua encosta. Seus restos mortais, vieram mais tarde adubar seus entornos.
A água cálida e cristalina que brota de suas entranhas, lavou, nutriu, aplacou a sede, regou as plantações e fez brotar flores, as mais lindas e exóticas.
E ela lá, firme, solene, imponente, a tudo assistindo, como uma muralha protetora natural, vendo vicejar à sua volta uma cidade com suas fleumas, lutas, festas, alegrias, desenlaces e até mesmo os crimes. Se lhe fosse concedido o dom de contar, de relatar o que presenciou com o passar dos séculos, ali enrijecida, parecendo fria e impassível, por certo nos diria com sua voz de pedra, arrastada, tonitruante, tipo barítono e forçando nos erres, a mágoa de ser pedra, de ser imóvel. Contaria entristecida, as inúmeras vezes que quis se desfazer em avalanche e acabar com as injustiças; as vezes que quis colher todas as belas flores que brotam em seus penhascos, para presentear os novos bebês que nasciam, e alegrar àqueles que os seus perderam em lutas, em emboscadas, em acidentes, em castigos por demais severos e impiedosos, nas prisões frias e malcheirosas e pelas doenças implacáveis.
Ela diria das vezes que quis ser abrigo e socorro para os fugitivos, moradia quente e acolhedora para os novos casais. Das quantas vezes que tentou ser muralha inviolável contra malfeitores.
E... após longo suspiro, recheado de infelicidade e frustração, se faria novamente pedra e emudeceria, eternamente.
Heloísa
Maio de 2007
Revista em 23-03-10
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